Páginas

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Amor e amores: tantas possibilidades

Dia dos namorados, motivo de comemoração para alguns e tristeza para outros. Quem encontrou sua cara-metade, sua alma gêmea, sua metade da laranja vai curtir juntinho, olhos nos olhos, talvez até fazendo planos para o futuro. Já quem está sozinho, por descuido, opção ou porque perdeu um relacionamento, se esforçará para esquecer a data ou celebrará com amigos igualmente solteiros. Alguns, quem sabe, vão sair na tentativa de encontrar seu amor ou pelo menos uma companhia, que ninguém é de ferro.
Hoje o amor é múltiplo, tem as regras que cada um inventa: relações monogâmicas, abertas, com e sem prazo de validade, com iguais e diferentes, em todos os sentidos, com paixão, com amizade, com raiva, com calma, com ciúme, com posse, com desprendimento, enfim, com intensidades diferentes. Amor de pais, de filhos, de irmãos, de amigos, amor pela humanidade e pelos animais, mas aqui se trata do amor que dá frio na barriga, faz o coração bater mais forte, com vontade de não largar e de sonhar junto. Sentimento e desejo que muitos escancaram e outros não confessam, porque não podemos esquecer o amor platônico.
O amor nem sempre teve tantas faces, ao menos publicamente, pois quem há de ter testemunhado o que acontece entre quatro paredes ao longo dos tempos? Se hoje ele é falado, exposto e perseguido despudoradamente, antes já foi casto, tímido e resguardado. Foi e ainda é o personagem principal de romances e filmes, que deixa todo resto como coadjuvante, porque, afinal, é ele que torna a vida excitante e move o mundo, cria arte, ciência e esperança.
Neste dia de flores, chocolates e presentes, beijos, abraços e promessas, desejo aos sonhadores e aos de pé no chão, românticos e práticos, passionais e tranquilos, de único ou vários amores, escandalosos ou silenciosos apenas uma coisa: que amem sempre, do jeito que melhor puderem e quiserem, sejam politicamente corretos ou não, porque a vida é curta demais para a gente se negar o direito de ser feliz. E para isto, vale pedido a santo Antônio (para quem acredita), mudança no visual, na atitude e nos planos e, principalmente, fé no amor.
E, uma última dica: fujam das metades, procurem uma pessoa inteira.

sábado, 8 de junho de 2013

Depressão é assunto sério



A confusão entre tristeza e depressão tem se repetido com frequência, é comum ouvir num grupo de amigos comentários do tipo: Fulana anda deprimida depois que terminou o namoro; Sicrano anda abatido e está mal na faculdade; Beltrano não conversa com ninguém e anda pelos cantos no trabalho. Obstáculos, adiamentos nos planos, reveses, decepções amorosas têm derrubado muita gente que acaba confundindo sofrimento normal com transtorno. Para uma dor virar depressão, muita coisa tem que acontecer, e não é algo que seja automático ou inevitável.
Chamar tristeza de depressão causa mais problemas do que se imagina, de uma sensação de impotência, por se acreditar doente, a uma tentativa de medicar um estado que nenhum remédio cura. Tristeza precisa voltar a ocupar o lugar de emoção normal, que resulta de uma fase de sofrimento e angústia, condição transitória e resposta normal a eventos como luto, perda de entes queridos ou do emprego, separação ou outras experiências estressantes. Trata-se de uma reação natural que se tornou complicada de vivenciar pela dificuldade cada vez maior de as pessoas encararem suas limitações e frustrações.
Sentir tristeza dá vontade de chorar, se empanturrar de chocolate vendo seriados de tevê e ficar olhando fotos daqueles momentos felizes, que se acreditavam eternos, até a pessoa se cansar de sentir pena de si mesma. A depressão é muito mais complicada e não passa quando o sofrimento chega a um ponto de esgotamento e se começa a reagir à situação. Ela provoca apatia e falta de motivação, incapacidade de experimentar prazer, falta de confiança, sensação de perda, vazio e inadequação, culpa, desesperança, problemas de relacionamento, pensamentos negativos, cansaço constante, excesso ou falta de sono e de apetite, irritabilidade.
Se tristeza é coisa que dá e passa, depressão é assunto sério, que pode levar o indivíduo a desacreditar de si mesmo, do que o rodeia e do futuro, fazendo-o perder o interesse pela vida e afastando-o do convívio social, com rompimento dos vínculos afetivos.  Ao esperar sempre o pior, a pessoa cai num poço sem fundo de desânimo, não percebe soluções e, ao sucumbir ao desespero, buscando alívio para a dor emocional, pode adotar comportamentos desadaptativos, como compulsão alimentar ou abuso de álcool e drogas.  Depressão deve ser diagnosticada e tratada sem perda de tempo.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Obesidade e preconceito


É fácil perceber a opinião negativa de muitas pessoas em relação ao sobrepeso. Muitas vezes, o preconceito é camuflado, vindo travestido de preocupação com a saúde, mas a verdade é gritante: as pessoas são julgadas, e condenadas, por sua aparência física. E isto se aplica aos gordos, desde o olhar de piedade nas situações corriqueiras, como não passar pela catraca dos ônibus, até a espiada de avaliação para seus pratos nos restaurantes self service. Sob camadas de compaixão, acabamos encontrando o veredicto: gordo(a) porque não tem força de vontade, tem o olho maior que a barriga e por aí vai.
Quem nunca se pegou observando uma criança gordinha e pensando por que a mãe não toma uma providência a respeito? Outro exemplo do preconceito velado é o tratamento dispensado às mulheres obesas em algumas lojas de roupas: além de não conseguirem nada do seu tamanho, são desestimuladas a se tornarem clientes, sendo encaminhadas para a saída, com a explicação de que nada ali lhes servirá. Quem nunca criticou, mesmo que apenas em pensamento, uma pessoa acima do peso em situações cotidianas, que atire o primeiro salgadinho.
Mas nem tudo é desanimador. Temos visto um movimento de valorização da mulher que não está nos padrões das supermodelos. Começou devagar, como as grandes revoluções, baseado na afirmação de direitos básicos, como o de que todo ser humano deve ser respeitado. É voltado principalmente para as mulheres, porque a sociedade ainda mostra um pouco mais de tolerância em relação aos obesos do sexo masculino, ou seja, eles são descriminados também, mas num tom mais baixo. 
O objetivo é que as mulheres valorizem o próprio biotipo, numa época em que apenas as magérrimas são aceitas como símbolo de beleza, o que percebemos como distorção da imagem corporal. Com muito bom humor, criam-se blogs e revistas de e para mulheres cheinhas, desfiles de alta costura e concurso de miss plus size. É a afirmação do direito ao próprio corpo, que, mais do que obedecer a imposições sociais, deve respeitar a sua genética.  Além de terem características singulares, é a diferença de tipos, tamanhos e medidas que tornam as pessoas únicas, portanto, interessantes.
As mulheres têm atrativos que vão além do corpo, como inteligência, sensibilidade, carisma, charme, comprometimento nas relações, enfim, várias outras características que as fazem belas. É preciso realmente valorizar as curvas do corpo, sinônimo do feminino, de ser mulher, não negando as gordurinhas que participam desse processo nos diferenciando do sexo masculino. Mais do que uma discussão sobre padrões, é preciso enfatizar que, não aceitar as diferenças, é praticar intolerância.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A família na berlinda



As notícias sobre a participação de menores de idade em delitos, de leves a graves, têm acirrado o debate sobre a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos de idade. Como psicóloga, interesso-me pelas causas de comportamentos desviantes e transtornos psicológicos. Acredito ser necessário refletir sobre por que indivíduos tão jovens infringem a lei, às vezes para afirmar a própria existência. E também por que a violência está tão banalizada: no trânsito, nas escolas, nas casas, conflitos são resolvidos com brigas e xingamentos, e, em alguns casos, terminam em tragédia, indicando que, para além das questões pessoais, a sociedade também está com problemas.
Há quem se preocupe mais em achar culpados, e, neste caso, mudar a lei, do que se debruçar sobre a situação de forma racional, em busca de soluções. É preciso pensar por que adolescentes e jovens adultos bebem e usam drogas cada vez mais cedo, empunham uma arma, praticam de agressão a assassinato, e, quando são detidos, não demonstram arrependimento. Afirma-se que a frieza e a indiferença de quem mal começou a vida e já frequenta delegacias resultam da certeza da impunidade e da percepção de que os adultos, representados pela família, pela escola, pela sociedade em geral, não têm controle sobre ele. Mas como se chegou a este ponto?
Procuram-se os culpados pela delinquência dos jovens na família. Porém, muitos jovens infratores vêm de lares sem conflitos graves ou histórico de abusos, cujos pais procuram lhes dar o melhor possível, provendo suas necessidades. Como entender uma criança que teve todas as necessidades atendidas e mesmo assim se torna um jovem infrator? Neste caso, permissividade, falta de valores éticos e de respeito a regras e pessoas, e a crença de que o mundo está a sua disposição e será tolerante com seus erros dificilmente formarão um adulto respeitador e consciente de seus direitos e deveres. A pobreza também não explica a marginalidade, pois muitos que tiveram uma infância de privação e sofrimento não optaram pelo crime.
A família é o lugar onde se inicia a formação do indivíduo, quando suas características de personalidade amadurecem. Pais sobrecarregados de trabalho e obrigações delegam a educação dos filhos à escola. Pais sem tempo para brincar e observar os filhos, seus horários, seus amigos e suas mudanças de comportamento compensam falta de atenção com presentes e fazendo as vontades das crianças, que acabam se tornando pequenas tiranas. Culpa pela pouca atenção, insegurança quanto à necessidade de exercer autoridade, e o pensamento mágico de que as birras e exigências passarão com o tempo apenas concorrem para o agravamento dos problemas de comportamento.
A infância fica cada vez mais curta, mas de quem é realmente a pressa de crescer? Muitos pais orgulham-se da precocidade de seus rebentos, permitem que eles participem de discussões e decisões que não lhes cabem e interagem com as crianças como se elas fossem adultos em miniatura. Os pais precisam recuperar seus papéis de autoridade e exercê-los, acreditando que dizer não e colocar limites é fundamental para que seus filhos se tornem adultos capazes de enfrentar a vida e os reveses de forma mais adaptativa. E os adultos devem lembrar que criança precisa e merece ser tratada de acordo com sua idade física e emocional.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

À beira de um ataque de nervos



O acúmulo de compromissos e a sobrecarga de responsabilidades exigem energia e equilíbrio emocional, e atenção constante para o cuidado da saúde, para que o indivíduo não sucumba a doenças, como o estresse. A menos que pertença a uma ordem monástica e viva em clausura, uma pessoa será submetida a fatores estressantes, resultantes de pressões internas e externas. Mesmo indivíduos aparentemente calmos e equilibrados sofrem o efeito de situações que requerem respostas e reações que mexem com todo sistema corpóreo.  transformando-se numa espiral de infelicidade e frustraç
As causas do estresse são mudanças inesperadas de rotina e estilo de vida (casamento, emprego, cidade); luto, separação, desemprego; cansaço devido a sobrecarga de trabalho e falta de descanso em finais de semana (levar tarefas para casa), somado a falta de férias (não se ausentar do trabalho por algum motivo); problemas de sono, que acabam se tornando causa e consequência de estresse; solidão, isolamento; problemas financeiros; ambiente de trabalho insalubre (tensão, prazos curtos, alterações no planejamento).
Estresse não tem idade. Nas crianças, pode se desenvolver por problemas familiares (brigas constantes, ambiente tenso), separação dos pais ou luto (perda de pessoa significativa ou mesmo de um animal de estimação) ou conflitos na escola (bullying). Excesso de cobrança por desempenho, agendas cheias com cursos de idiomas, computação, prática de esportes, e pouco tempo para brincar interferem no crescimento saudável, fazendo com que a criança se defronte com questões acima de sua capacidade de resolução e experimente angústia. Crianças e adolescentes podem sofrer de doenças como ansiedade e depressão, que até há pouco tempo se manifestavam apenas em adultos.
Os sinais de estresse vão de queda de cabelo à baixa da imunidade; dores de cabeça constantes e dores no corpo pela contração da musculatura; problemas dermatológicos, como herpes; problemas digestivos, como azia e refluxo; esgotamento; lapsos de memória (esquecer compromissos, pagamento de contas) e dificuldade de concentração; insônia; medo, nervosismo e impaciência até em relação a pequenos aborrecimentos. Com a piora do estado, a pessoa fica à beira de um ataque de nervos e se torna uma bomba prestes a explodir. Tentando relaxar, o indivíduo pode adotar hábitos que só pioram a situação, como consumo excessivo de café e abuso de tabaco, álcool e drogas. E um dos efeitos do estresse é o ganho de peso, por alterações hormonais e descuido da alimentação.
O estresse é uma reação psicológica, física, mental e hormonal em resposta a um evento e se torna prejudicial quando o organismo é exposto a ele continuamente, levando o indivíduo a ultrapassar seu limite de recuperação e a esgotar sua capacidade de adaptação, impedindo-o de relaxar após a tensão. A imagem que pode ilustrar este processo é a de uma pessoa franzina obrigada a carregar algo que pesa toneladas, sem ajuda ou descanso, por longo tempo. Isto é o estresse: algo do qual não se pode escapar, uma batalha pela sobrevivência, muitas vezes, mas que, se não tratado, leva a problemas físicos e psicológicos.  
Muitas vezes, o estresse origina-se de uma sucessão de sonhos que não se realizam, projetos que fracassam, sujeição a uma vida sem cor, sem graça, sem alegrias, que se transforma numa espiral de infelicidade e frustração. Uma das grandes fontes de sofrimento das pessoas é a forma como elas encaram a vida, que inclui a importância que dão a acontecimentos que não merecem atenção, e ao apego a situações, pessoas e emoções tóxicas; a dificuldade de expressar sentimentos, desejos e necessidades, o que prejudica os relacionamentos; buscar fora de si mesmo as respostas e saídas para dúvidas e medos, uma rede de apoio é fundamental, mas não substitui o autoconhecimento. Relaxar, refletir, mudar o que for preciso, cuidar da autoestima e ser agradecido são alguns passos para se ter uma vida mais plena.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A magreza insuficiente



Ao contrário do que se pensa, a anorexia nervosa é um transtorno muito antigo, que pode ser observado já no século VIII, com a história de Santa Vilgefortis, que desejava entrar para um convento, mas foi prometida pelo pai em casamento a um nobre devasso, o que a levou a um jejum rigoroso, para se tornar feia ao pretendente. E os casos da chamada anorexia santa se repetiram: Santa Clara de Assis, Santa Rosa de Lima, Santa Verônica Giuliani, Santa Catarina de Siena. Mas nenhuma delas jejuava ou praticava restrição alimentar severa em busca de um corpo magro, o que pretendiam era a purificação do espírito e a comunhão com Deus.
Da Idade Média aos dias atuais, a lista vem aumentando: modelos, como Ana Carolina Reston, escritoras, como Katherine Anne Porter, atrizes, como Jane Fonda, Sally Field e Keira Knightley, cantoras, como Juliette Greco e Karen Carpenter, e membros da realeza, como lady Diana Spencer e Victoria Désirée Bernadotte (filha do rei Gustavo da Suécia), famosas ou anônimas, a dor das anoréxicas é a mesma.  Os motivos para a privação alimentar mudaram, acompanhando as transformações culturais e sociais, mas se percebe em comum o controle do corpo, o domínio da vontade. Santas ou profanas, todas parecem fugir de algo que lhes causa profundo sofrimento, e, para alcançar esta libertação, optam pelo martírio de um corpo que as trai e que querem tornar imperceptível.
A anorexia nervosa desenvolve-se principalmente em adolescentes e mulheres jovens, mas há casos entre os homens. Os critérios para o diagnóstico do transtorno são: medo intenso de ganhar peso, mantendo-o abaixo do mínimo considerado saudável para a idade e a altura; dietas severas, com restrição principalmente de alimentos de alto valor calórico, como massas e doces; pular as refeições, com a desculpa de estar sem fome; cortar a comida em pedaços pequenos, mexer a comida no prato em vez de comer; recusar-se a comer na frente de outras pessoas, em festas e reuniões; fazer uso de laxantes, diuréticos ou fórmulas para emagrecer; praticar exercícios físicos em excesso, pesar-se e tirar medidas com freqüência, vomitar, fazer uso de enemas; a menstruação torna-se irregular até a interrupção completa (amenorreia); sensação exagerada de frio; mudanças de humor, como irritabilidade, tristeza etc.; insônia e cansaço constante.
O diagnóstico é difícil porque a pessoa nega o problema enquanto pode, e muitas vezes o transtorno é percebido pelo dentista, por exemplo, porque, devido aos repetidos episódios de vômito, o esmalte do dente é corroído pelos ácidos estomacais. Muitas mulheres apresentam feridas nos dedos e no dorso da mão, provocadas pelo atrito com os dentes no ato de induzir o vômito. A anorexia interfere no crescimento e desenvolvimento normais, é causa de muitos problemas orgânicos (cardíacos, renais), que vão se tornando mais graves à medida que o transtorno piora, e pode levar à morte.
Um comportamento de risco associado é o abuso de álcool, com a bebida funcionando como substituto da comida, na tentativa de se perder a fome. É a anorexia alcoólica, ou drunkorexia, condição ainda não reconhecida, mas uma realidade preocupante. Sendo um transtorno que tem início na adolescência, os pais devem ficar atentos a mudanças de comportamento dos filhos, ao demonstrar preocupação excessiva com o peso, a forma do corpo, vendo gordurinha e culotes que não existem. É importante também que os pais não sejam críticos nem reproduzam, com atitudes ou comentários, os modelos estéticos veiculados pela mídia.
O tratamento da anorexia nervosa é feito por equipe multiprofissional, envolvendo psicologia, psiquiatria e nutrição. Indica-se que a família seja encaminhada para terapia, para que os membros compreendam melhor o transtorno e possam auxiliar na recuperação de uma pessoa querida que some a olhos vistos e para quem a magreza nunca é suficiente.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Terapia e emagrecimento



As pessoas têm dificuldade de fazer mudanças necessárias, seja emagrecer, abandonar hábitos nocivos, como fumar, ou voltar a estudar/trocar de emprego/terminar um relacionamento, não porque careçam de vontade ou coragem, mas porque precisam adquirir as ferramentas para dar o primeiro passo. Mudar não é fácil, exige reestruturação dos pensamentos e revisão das atitudes, ou seja, transformação do que a pessoa construiu como seu ser ao longo da vida. Os indivíduos são reconhecidos pelo conjunto de suas qualidades e definidos por virtudes apreciadas no grupo ao qual pertencem, como, por exemplo, honestidade, dedicação, gentileza. Todos somos resultado de predisposição genética e influências ambientais, vários fatores que vão moldando características de personalidade e caráter.
As pessoas nascem com tendências que serão estimuladas ao longo do processo de amadurecimento, mas, dependendo da interação com os cuidadores, o que seria uma característica positiva torna-se fonte de problemas. Se, na infância, a criança convive com mãe depressiva, pai autoritário, num ambiente tenso com brigas constantes, pais absorvidos nos respectivos trabalhos e responsabilidades financeiras, e pouco disponíveis para as necessidades dos filhos, pode desenvolver um senso de inadequação e desamparo. Obrigada a enfrentar oscilações de humor dos adultos, a criança aprende a não reclamar, a cuidar de si mesma e se comportar de forma que não piore os conflitos familiares.
Ao lidar com situações além da sua capacidade emocional, a criança torna-se um adulto marcado por estas experiências. Agirá com as pessoas de forma totalmente contrária ao que vivenciou no passado ou continuará a pisar em ovos, sem saber colocar limites às demandas dos outros? Permanecerá se considerando responsável pelo bem-estar de todos à sua volta e repetirá o comportamento-padrão de estar sempre disponível, não recusar favores ou pedidos de ajuda, mesmo que estejam fora de sua possibilidade? Assim sendo, é como se este modo de proceder fizesse parte da pessoa, e a definisse, daí a percepção equivocada de que a mudança é difícil, senão impossível. Para ela, é natural se envolver em relacionamentos onde seu papel se limita a cuidar das necessidades das pessoas.
O que se ouve no consultório? Relatos sobre tristeza e frustração de repetidas tentativas e fracassos de perder peso, acompanhados de uma visão confusa de si mesmo e dos motivos disto. Para vencer a briga com a balança, além de mudanças na alimentação e prática de exercícios físicos, é preciso identificar os gatilhos que levam à compulsão, modificar os pensamentos e entender as emoções que a causam. É fundamental perceber que, para calar a solidão e o sofrimento, acaba-se abrindo a boca apenas para a comida. E que a mudança se inicia ao aprender a dizer não à comida e, principalmente, às pessoas e situações do dia a dia.