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terça-feira, 29 de maio de 2012

Transtornos Alimentares no esporte

Com a colaboração de Silvia Deschamps, psicóloga do esporte

Os transtornos alimentares, principalmente a anorexia nervosa e a bulimia nervosa, têm demandado crescentes cuidado e preocupação nas duas últimas décadas, em decorrência dos altos índices de sua prevalência e das dificuldades associadas ao seu tratamento. Alguns dados alarmantes são confirmados: 15% dos pacientes morrem e formas crônicas estão presentes em 25% deles (baixo peso crônico ou exacerbadas flutuações de peso). As consequências são complicações metabólicas (desnutrição, problemas cardíacos e renais, entre outros), sequelas psicológicas (ansiedade, depressão ou outros transtornos) e isolamento social.
A anorexia nervosa e a bulimia nervosa têm em comum a preocupação com peso e forma física, mas as similaridades acabam aí. Na anorexia, por mais que a pessoa esteja magra, ela se enxerga gorda e pratica restrição alimentar, jejum, vômito e purgação, uso de laxantes e diuréticos e prática excessiva de exercícios físicos, em sua obsessão pela magreza. a bulimia se caracteriza por preocupação persistente com comida, que provoca episódios de descontrole, quando o indivíduo consome grandes quantidades de alimento em curto espaço de tempo, que ele tenta compensar com vômitos, uso de laxantes e purgantes e períodos de jejum.
Esta é uma exposição resumida dos transtornos alimentares, pois o que se nos consultórios e centros de tratamento é um quadro muito mais complexo, inclusive com migração de um transtorno para outro. Se estas síndromes são ameaçadoras e têm consequências maléficas para a população em geral, pode-se imaginar o que representam quando presentes em quem, de uma forma ou de outra, tem o corpo como objeto de trabalho. É o caso de modelos, atores e atletas.
Um estudo realizado por Perini, Vieira, Vigário, Oliveira, Ornellas e Oliveira (2009), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, teve como objetivo identificar a presença de transtorno do comportamento alimentar (TCA) ou síndromes precursoras e o grau de distorção da imagem corporal em atletas de elite do nado sincronizado, avaliando 27 atletas da seleção brasileira na época em comparação com não-atletas. Esta modalidade é considerada de risco para desenvolvimento de TCA por valorizar leveza e beleza de movimentos, aspectos associados a baixa massa corporal.
Embora ambos os grupos tenham apresentado parâmetros antropométricos compatíveis com padrões saudáveis para idade e sexo, os resultados evidenciaram a presença de insatisfação com a autoimagem corporal e a adoção de práticas não recomendáveis de controle da massa corporal, sobretudo entre atletas da categoria júnior e adolescentes não-atletas. Os resultados retratam uma tendência mundial de preocupação com a aparência entre adolescentes, capaz de levá-las à adoção de condutas não-saudáveis.
Determinar a presença de comportamentos bulímicos e sua intensidade entre atletas adolescentes do sexo feminino corredoras de fundo foi o objetivo do estudo de Bosi e Oliveira (2004), da Universidade Federal do Rio de Janeiro. De um total de 40 atletas adolescentes, registradas na Federação de Atletismo do Rio de Janeiro, foram avaliadas 17 meninas corredoras de fundo. O problema foi detectado, mas os resultados obtidos indicam a necessidade de estudos mais abrangentes junto ao segmento focalizado, de modo a subsidiar medidas preventivas. Ressalte-se, ainda, a necessidade de alertar e informar familiares e profissionais envolvidos no trabalho junto a essas adolescentes sobre o perigo potencial dos comportamentos identificados.
Vieira, Oliveira, Vieira, Vissoci, Hoshino e Fernandes (2006) investigaram a ocorrência de distúrbios de atitudes alimentares e sua relação com a distorção da autoimagem corporal em 101 atletas de judô do estado do Paraná. A pesquisa concluiu que judocas de ambos os sexos, com pequenas diferenças, apresentam grande probabilidade de desenvolver distúrbios de atitudes alimentares e distorção de imagem corporal.
À exigência de ter um corpo e um peso ideais soma-se a pressão por resultados, na conquista de vitórias e medalhas, o que permite ao atleta negociar patrocínios e apoios de acordo com sua performance. Esta necessidade de bom desempenho, entre outros fatores a serem pesquisados, pode levá-los, em especial nas modalidades nas quais o peso é fundamental, a desenvolver transtornos alimentares. Portanto, é imprescindível que os familiares e a comissão técnica que trabalha diariamente com os jovens estejam atentos aos possíveis sintomas, para, caso seja observado algum característico, buscar o tratamento multidisciplinar necessário.