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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Mente e Cérebro

A edição de julho de 2011 da revista Mente e Cérebro Neurociência traz matéria sobre “Dieta e personalidade: você tem fome de quê?”. Já na apresentação, o texto diz que “traços pessoais ajudam, e às vezes atrapalham, na hora de eliminar alguns quilos ... certo grau de culpa e tendência à flexibilidade, por exemplo, facilitam a vida de quem se propõe emagrecer; já o excesso de otimismo e a sensação de ser constantemente rejeitado e injustiçado costumam prejudicar”.
Os estudos que relacionam personalidade e perda de peso são recentes, mas fundamentais, pois podem provar que não bastam dieta, exercícios e força de vontade sem terapia. O que as pesquisas estão descobrindo é observado nos consultórios e instituições que atendem pacientes com problemas de peso: pessoas que negam a gravidade do problema, subestimam a possibilidade de desenvolver doenças e sabotam a dieta por acreditar que, no final, tudo dará certo.
Confiança em excesso é prejudicial, quando o indivíduo tem expectativas de perder muito peso em curtíssimo prazo, geralmente estimulado por um evento social ao qual quer comparecer, e decide começar, por conta própria, uma dieta restritiva acompanhada de um plano de exercícios puxado. Quando o esforço não é recompensado, vem a sensação de fracasso e a desistência. Neste caso, é preciso reformular o projeto em bases mais realistas, com acompanhamento profissional.
Outra armadilha fatal para as pessoas com característica de personalidade conciliadora: não recusar o bolo de chocolate ou a macarronada para não ferir os sentimentos de mamãe, que teve tanto trabalho e cozinhou com todo amor. Em família, comida e afeto misturam-se, criam hábitos e contribuem para a obesidade desde a infância. Quem de nós não lembra de um cheiro, um sabor, uma textura, do doce de leite caseiro, do brigadeiro comido quente da panela, de raspar a massa crua do bolo na colher de pau?
Comida dá prazer, mas se torna um problema quando é usada para lidar com emoções que trazem sofrimento, para compensar a sensação tanto de impotência quanto de submissão frente a eventos que o indivíduo acredita que não consegue enfrentar. Comida não substitui relações, não aplaca angústia, não é remédio para ansiedade ou depressão. Comida não é um meio para se chegar ao bem-estar emocional, que pode ser obtido através da terapia, do autoconhecimento, da aceitação de si mesmo.

Mais informações em www.mentecerebro.com.br.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Beleza interior

Talvez muita gente não saiba, mas está havendo um concurso de misse no país. (Aliás, misse Teresópolis é a representante do Rio de Janeiro, o que não deixa de ser irônico, dada a situação na cidade.) O concurso de misse Brasil já foi um acontecimento comparável a decisão de campeonato nacional; e o de misse universo tinha a importância de final de copa do mundo. Para se ter uma dimensão do evento, até hoje comenta-se a derrota de Marta Rocha por causa de imperceptíveis polegadas a mais nos quadris.
Com o tempo, a paixão esfriou, e os concursos perderam o glamour, mas resistiram. Acompanhando as mudanças, inclusive dos conceitos de beleza, os concursos premiam não a estética natural, mas a intervenção cirúrgica mais bem-feita: botox, silicone e plásticas sequer são negadas. A competição instaura uma noção de democracia distorcida, que julga corpos verdadeiros e falsos pelos mesmos parâmetros, validando a transformação física em nome de uma ideia de perfeição.
Há um filme, ao mesmo tempo engraçado e melancólico, que faz refletir sobre sentimentos, sucesso, beleza, família, enfim, tudo de que trato neste espaço, semanalmente. Pequena Miss Sunshine é o que se chama de road movie, uma história que se desenrola durante uma viagem, quando os personagens precisam conviver uns com os outros, por falta de opção, e fazem descobertas a respeito de si mesmos.  Tudo converge para um concurso de misse infantil, do qual participará a caçula da família.
Dúvidas e desesperanças que acompanham o adolescente que se recusa a falar e o tio que tentou o suicídio; contradições e angústias do pai que não consegue vender seu programa motivacional; a força da mãe sempre atenta que cuida de todos e nunca desiste; o avô anárquico e afetivo a seu modo, consciência crítica que incomoda; e a verdadeira protagonista, Olive, a menina de 7 anos, em torno da qual gira a história.
Quando Olive finalmente apresenta a performance que ensaiou com o avô, em sua ingenuidade, evidencia e denuncia a erotização, a tentativa de mulherização das meninas, com total apoio dos adultos envolvidos. Chocados e incapazes de perceber a extensão de seus atos, os adultos reagem hipocritamente contra a menina, sentindo-se ofendidos, quando ela apenas coloca na frente deles um imenso espelho que reflete seus feios desejos e pequenas perversões. As pessoas não gostam de ser expostas.

Pequena Miss Sunshine (Litte Miss Sunshine), de Jonathan Dayton e Valerie Faris, EUA, 2006. Disponível em DVD.





sexta-feira, 15 de julho de 2011

Transtornos menos conhecidos

A maioria das pessoas já ouviu falar de anorexia nervosa e bulimia nervosa, mas há outros distúrbios psicológicos relacionados à alimentação e à imagem corporal que são pouco divulgados. A anorexia nervosa ganhou exposição quando foi impossível ignorar as formas esqueléticas das modelos, sendo que algumas faleceram de consequências da doença.
A Ortorexia evidencia-se por preocupação exagerada com os hábitos alimentares, e gasto excessivo de tempo não só na compra de produtos, mas no planejamento e preparo das refeições. Nesta categoria, encontram-se os que seguem dietas radicais, mesmo que sejam saudáveis, como os vegans radicais. A Síndrome do Gourmet caracteriza-se por preocupação excessiva com compra, preparação, apresentação e ingestão de pratos diferentes e/ou exóticos, com perda de interesse nas relações sociais, familiares e ocupacionais.
A Síndrome do Comer Noturno está relacionada à ingestão de alimentos predominantemente à noite, estando a pessoa consciente ou não do fato. O indivíduo pode se levantar várias vezes para comer, e não se lembrar de nada no dia seguinte. Pode estar combinada a transtorno alimentar, transtorno do sono e transtorno de humor. Já o Transtorno do Comer Compulsivo provoca muito sofrimento porque, geralmente, a pessoa isola-se, por vergonha do próprio comportamento, e come sozinha de modo muito rápido, até se empanturrar (o que se conhece como binge eating ou farra alimentar).
A Vigorexia é um transtorno mais diagnosticado em homens, que sentem vergonha do próprio corpo, achando-se franzinos e magros. Esta percepção de fraqueza muscular induz a pessoa a se exercitar de forma contínua e quase fanática, exigindo cada vez mais desempenho de si mesmo. A obsessão com a forma física pode levar o indivíduo ao uso de suplementos e, em alguns casos, de anabolizantes e até remédios de uso veterinário, que podem matá-lo.
O Transtorno Dismórfico Corporal está relacionado a um desconforto subjetivo resultante de uma percepção de imperfeição física pequena ou inexistente, que faz com que a pessoa busque cirurgias estéticas que nunca a satisfazem. Assisti a depoimento de uma jovem que afirmou que se submeteria a procedimento para diminuir alguns centímetros, por se considerar alta. Como na maioria dos casos, ela listava outras mudanças que gostaria de fazer. Em casos extremos, o indivíduo amputa um braço, uma perna, um pé, por se considerar desfigurado.
Esta é uma apresentação resumida de transtornos que provocam muito sofrimento e podem ter um final trágico. Merecem, por isto, muita atenção e pesquisa, para que sejam melhor compreendidos e se possa desenvolver protocolos de tratamento mais eficazes.






sexta-feira, 8 de julho de 2011

Beleza põe mesa?

Estudo feito com universitárias britânicas pela entidade The Succeed Foundation, que combate distúrbios alimentares, em parceria com a University of the West of England, revelou que “16% das entrevistadas trocariam 1 ano de suas vidas por um corpo nos padrões de beleza atual, 10% trocariam 2 a 5 anos, e 2% até 6 ou 10 anos de vida, e 1% trocariam até 21 anos por uma aparência ‘perfeita’”. As estudantes declararam também que “trocariam uma promoção de trabalho (8%), o tempo que passam com a família (9%), e abririam mão de uma saúde perfeita (7%) por uma aparência que julgam adequada, no que diz respeito a forma e peso”.
Após oito anos de pesquisa, o estudo concluiu que 93% das entrevistadas consideravam sua aparência inadequada, e que cerca de 46% sofreram bullying, sendo ridicularizadas por sua aparência, pelo menos uma vez durante a vida acadêmica. As conclusões indicam uma tendência crescente de valorização do padrão de beleza em detrimento da qualidade de vida, do bem-estar, da realização pessoal e profissional. Resumindo, a pessoa seria definida pela aparência física e não por suas realizações. As duas instituições desenvolvem um trabalho de conscientização que possa ajudar as mulheres a se sentirem melhor em relação ao próprio corpo.
Os tempos mudam e os valores acompanham estas mudanças, o problema surge quando imposição e intolerância tolhem a individualidade. A crença de que beleza física é fator determinante de sucesso e aprovação do grupo pode ser aprendida e reforçada na família, na escola, na sociedade. A aparência física torna-se produto, quase uma commodity, sendo cotada na bolsa de valores social, e, neste processo, diferenças e singularidades precisam desaparecer.   O corpo sequestrado deve ser reconstruído em formato supostamente mais desejável e reconhecido.
A insatisfação com a própria aparência pode levar a uma busca incansável por dietas restritivas, excesso de exercícios físicos, tratamentos cosméticos, cirurgias plásticas, próteses, abuso de substâncias, tanto para emagrecer quanto para adquirir músculos.  Ao não obter o resultado desejado, a pessoa intensifica as tentativas e até opta por métodos radicais e que colocam sua vida em risco, por serem clandestinos, experimentais, amadores.  Sem mencionar os prejuízos emocionais, como ansiedade e depressão, vazio emocional, solidão.
O que as pessoas veem quando se olham no espelho? Ou seria mais apropriado perguntar quem as pessoas querem enxergar no espelho?




sexta-feira, 1 de julho de 2011

Se Freud fosse vivo

Pode parecer estranho uma psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental e nenhum histórico de trabalho com psicanálise falar em Freud. Sempre fui curiosa e, à medida que o tempo passa, fico mais e mais tolerante e aberta a teorias e práticas, além de visões que possam me enriquecer pessoal e profissionalmente. E todas as vertentes do estudo da psique humana têm seu valor e aspectos interessantes.
A notícia que me chamou atenção desta vez foi sobre o rapaz que bebeu demais na própria despedida de solteiro. Ele meteu-se em confusão no bar onde estava, foi levado para a delegacia, aproveitou um momento de distração, pegou as chaves de um carro estacionado no pátio da delegacia pertencente a um escrivão, roubou-o, bateu com o mesmo, acabou se machucando e, no final, foi preso.
Este é um resumo do acontecido, não há detalhes indicativos dos motivos que fizeram um jovem de 19 anos beber além da conta na véspera do casamento e acabar numa sucessão de eventos dignos de uma sequência de Se beber, não case (filme norte-americano que já está na parte 2). Será que a vida imita a arte ou a arte imita a vida?
Todos estes acontecimentos poderiam ser explicados por imaturidade, traquinagens de garoto ainda incapaz de controlar seus impulsos e, apesar do exagero do comportamento, derrubado pelo excesso de bebida. Mas psicólogo tem dificuldade com explicações simplistas e fica imaginando se teria sido uma armadilha daquele conceito que foi a base da teoria freudiana, o inconsciente. O rapaz deseja casar ou pensa que deseja casar?
Não tenho condições de aprofundar esta questão sem cair no achismo. Acredito apenas que a noiva, que foi prestar solidariedade ao noivo na delegacia e afirmou que o casamento seria remarcado, deveria refletir melhor: mesmo que não haja razão profunda ou desconhecida, imaturidade não é bom prognóstico para uma vida a dois. Independentemente da linha terapêutica seguida, sabe-se que nada acontece por acaso, e algo precisa ser entendido por todos os envolvidos nesta história, principalmente pelo protagonista.
Afinal, como um casamento pode se transformar em prisão, literalmente?