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sexta-feira, 25 de março de 2011

Adolescência e percepção de si mesmo

Na infância, os pais são os modelos dos filhos, as figuras de autoridade que sabem a diferença entre certo e errado, bom e mau, orientam e esclarecem, dando não apenas suporte financeiro (alimentação, abrigo, educação), mas apoio psicológico e emocional. Mas, com as mudanças sofridas nas últimas décadas, a família assumiu papel secundário na orientação e formação dos filhos, reforçando estereótipos e modelos.
Os pais culpam a mídia por influenciar seus filhos, mas eles mesmos parecem desistir do papel que lhes compete, ou ficam seduzidos por viver fantasias através deles. Que exemplo dá a mãe adepta de dietas, que passa horas na academia, conhece todas as novidades cosméticas antienvelhecimento e incentiva a filha a emagrecer até com ajuda de fórmulas, se for preciso? E que mensagem passa a mãe-amiga, figura cada vez mais comum, que frequenta os mesmos ambientes que a filha, denunciando uma rivalidade inconsciente? Ou a mãe que sai com os amigos dos filhos porque não quer ser vista como ameaça aos maridos das amigas da mesma faixa etária?
Cirurgiões plásticos e dermatologistas demonstram preocupação pelo fato de os jovens se submeterem a procedimentos estéticos cada vez mais cedo com o apoio da família. Rinoplastias e implantes de silicone tornaram-se presentes de aniversário, notadamente para comemoração dos 15 anos, data símbolo para a entrada do jovem na vida adulta. Seria a cirurgia plástica o rito de passagem desta época?
O perigo é ela representar o ato que milagrosamente proporcionará felicidade, bem-estar e aceitação, a partir do momento em que o jovem corresponda às expectativas da sociedade em termos de padrões estéticos. Trata-se de engano porque realização e plenitude, além de outras boas sensações, não são obtidas por meio destes artifícios. Uma modificação corporal para um jovem ainda em formação fisica e emocional não garante a aceitação de si mesmo e, consequentemente, não refletirá em seus relacionamentos.
A adolescência é a fase da vida em que a autoestima se desenvolve, quando o indivíduo inicia seus primeiros passos em direção à autonomia, adquire autoconfiança e habilidade para fazer escolhas, enfrentar dificuldades e superar obstáculos. A percepção positiva de si mesmo e a segurança alcançada neste período de vida vão permitir que os jovens conquistem equilíbrio emocional e independência, que os protegerão da pressão social e cultural.

sábado, 19 de março de 2011

Japão

O mundo acompanha a tragédia que ocorreu no Japão com tristeza e medo. A tristeza é resultado da empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro e entender o seu sofrimento, seu luto. O medo é despertado pelo instinto de sobrevivência, e, neste momento, todos temem o perigo representado pelo risco de vazamento das usinas nucleares.
O que chama atenção é a forma como o povo japonês tem enfrentado tal provação. Não há caos, violência, saques, sequer manifestações de desespero. Disciplinados, contidos, respeitosos, os japoneses ensinam-nos sobre cidadania, solidariedade, superação. Para os ocidentais, é espantoso o autocontrole demonstrado diante de tal acontecimento. E a todos emociona a dedicação dos voluntários que trabalham nas usinas nucleares, tentando evitar um desastre maior. Estas pessoas não recuam do que consideram seu dever, mesmo já tendo sido contaminadas pela radiação.
Catástrofes provocam reações diferentes, dependendo da estrutura psíquica do indivíduo. Quando confrontado com uma situação que não controla e percebe sua impotência diante dos desastres naturais, o ser humano pode se revoltar e duvidar de valores éticos e espirituais, por considerar que eles não lhe adiantaram de nada no momento de perigo. Ou, ao contrário, a experiência da dor, pessoal ou coletiva, e a consciência de que tudo é finito e transitório pode despertar a necessidade de evoluir e melhorar. Isto significa que as situações podem revelar o melhor e também o pior das pessoas. E a percepção dos fatos determinará suas escolhas e comportamentos futuros.

terça-feira, 15 de março de 2011

O homem perdido

No interior de São Paulo, um pedreiro de 56 anos refugiou-se no Plantão Policial, alegando estar sendo seguido, desde o Paraná, por um homem que pretende matá-lo. Quando perguntado sobre os motivos do suposto desafeto, alegou que o perseguidor tem interesse em sua namorada. Depois, balbuciou coisas sem nexo, dizendo ter visto o que não devia. Os policiais tentaram encaminhá-lo para um serviço de assistência social, mas o homem se recusa a sair do local. Como se trata de repartição pública, aberta 24 horas, ele não pode ser expulso.
O homem, que aparenta mais que a idade informada, não tem pertences pessoais, parece confuso e demonstra medo. Ele não toma banho há dias, come sanduíches dados pelos funcionários, dorme no chão ou nas cadeiras. Passa o dia vigiando a rua, na tentativa de não ser surpreendido. Os policiais acham que o homem sofre de mania de perseguição. Pode-se desconfiar de trauma, choque, entre outras hipóteses, mas só uma avaliação psicológica pode esclarecer seu estado mental.
A situação lembra roteiro de teatro do absurdo, onde os personagens parecem aguardar um desfecho independente deles. É um tipo de impasse tolerado. Mas os dias passarão e o homem com medo não poderá permanecer indefinidamente na delegacia. Ele pode ir embora tão repentinamente quanto chegou, levando consigo seu mistério. Talvez algum familiar ou conhecido o veja na televisão e vá resgatá-lo. Ou quem sabe um profissional da saúde o encaminhe para uma instituição que se responsabilizará por ele. Então, tudo voltará à rotina, o homem será esquecido mais uma vez. Por enquanto, ele é um prisioneiro quase voluntário, encarcerado em si mesmo, que precisa de ajuda para se libertar.

sábado, 12 de março de 2011

De psicopatas e outros bichos

Na beira do rio, o elefante e o escorpião se encontraram. Ambos queriam atravessar para a outra margem, mas não havia ponte ou outro meio de fazê-lo. O elefante, por ser maior e mais pesado, concluiu que conseguiria chegar ao outro lado, apesar da correnteza. O escorpião, percebendo que só atravessaria o rio com ajuda, pediu ao elefante que o levasse consigo.
O elefante recusou o pedido, argumentando que o escorpião tinha instinto de atacar e ferir, o que colocaria sua vida em risco. O escorpião retrucou que, se ferisse o elefante, morreria afogado. Ao ouvir isto, o elefante refletiu que fazia sentido, o escorpião não arriscaria a própria vida enquanto precisasse dele.
Acordo feito, iniciaram a jornada, com o escorpião encarapitado nas costas do elefante. No meio do rio, o elefante sentiu uma dolorosa picada. Já perdendo a consciência, pelo efeito do veneno, mas antes de afundar, perguntou ao escorpião por que ele fizera aquilo, apesar do acordo. E, mais que tudo, selando o próprio destino. O escorpião respondeu-lhe simplesmente que aquela era sua natureza.
Esta fábula tem versões diferentes, mas a moral é sempre a mesma: cuidado com quem promete o que não pode cumprir. Não acredite que as pessoas mudam de uma hora para outra nem negocie com predadores.
Pessoas elefantes e pessoas escorpiões são facilmente encontradas nos noticiários policias, políticos, econômicos, sob manchetes que tratam desde pequenos delitos, golpes, furtos, agressões até crimes passionais, grandes desfalques, assassinatos em série, como praticantes e vítimas dos crimes. Pessoas elefantes são as que acreditam nas pessoas escorpiões, apesar dos avisos, antecedentes e, muitas vezes, histórico, e sempre lhes dão mais uma chance. Elas creem na mudança milagrosa, na redenção, no poder do amor e da compreensão, minimizando o perigo.
Não divido o mundo em bem e mal, não acredito em dicotomias nem que os indivíduos tenham apenas uma face, ao contrário, somos criaturas complexas. Projetamos nossas sombras o tempo todo, somos contraditórios, mudamos de ideia e de rumo. Por isto, evoluímos.
Um elefante pode agir como escorpião, mas se arrependerá e sentirá culpa. O escorpião só se comportará como elefante se isto o beneficiar e, se suas verdadeiras intenções forem desmascaradas, seu arrependimento dificilmente será sincero. Ele ficará mais preocupado em não repetir os erros, refinar as estratégias e ser bem-sucedido na próxima oportunidade. Em alguns casos, conseguindo ou não seu intento, o escorpião sacrifica a vítima, descartando-a por não lhe ser mais útil. No caso, a vítima é o elefante que se deixa convencer pela lógica do escorpião.
Para mim, a moral da história é: cuidado com seu companheiro de travessia. A pessoa escorpião dá mostras de seu caráter antes da picada fatal.

terça-feira, 8 de março de 2011

Inibidores de apetite

Foi amplamente noticiado que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pretende proibir a venda de medicamentos inibidores de apetite que atuam no sistema nervoso central, os anorexígenos sibutramina, femproporex, anfepramona e mazindol, por representarem tantos riscos cardiovasculares e cardiopulmonares que não compensariam os prometidos benefícios. O único composto liberado pela agência reguladora seria o orlistat, princípio ativo do Xenical.
A notícia provocou mais polêmica que debate. A questão é complexa e vai além de se ser contra ou a favor, não se trata de opinião, mas de pesquisa. A obesidade vem aumentando muito na população mundial, atinge todas as classes sociais, sem qualquer distinção de idade, gênero, raça. Não há solução milagrosa ou rápida; emagrecer é um processo lento que depende de uma conscientização que leva a mudanças de comportamento e escolha de um novo estilo de vida. O tratamento da obesidade não se baseia em receitas, pois vai muito além delas.
Não se pode esquecer alguns perigos relacionados ao uso de medicamentos, de forma geral, quais sejam, os efeitos colaterais, o uso prolongado e a dependência. Pode-se argumentar que isto se aplica até mesmo à aspirina, o que é verdade. Mas não invalida a discussão. Comprovou-se que, no Brasil, a prática da automedicação é disseminada, todos temos um pouco de médico e de louco, se fez efeito na vizinha, deve servir para mim também, é a conclusão a que muita gente chega. O problema é que nem todos reagem à formula da medicação da mesma forma, pode haver intolerância, reação alérgica, com resultados graves.  
Outro aspecto diz respeito à comercialização de medicamentos no país, motivo de preocupação por parte das autoridades. Remédios legalizados são vendidos de forma ilegal, graças a receitas falsas ou sem a apresentação delas. Sem esquecer as fórmulas de manipulação, que de naturais só têm o nome.
A obesidade mobiliza tanto que tem até um reality show, onde os participantes são submetidos a exercícios físicos dignos de atletas profissionais por treinadores sádicos e constantemente testados por ofertas de guloseimas proibidas, reforçando a visão do gordo como preguiçoso e sem força de vontade. Como já foi escrito neste blog, o tratamento da obesidade é multidisciplinar, levando em consideração aspectos psicológicos, hábitos alimentares, rotina de vida. A herança genética pesa, mas não define. Em lugar de proibições e resoluções oficiais, melhor seria combater a obesidade com orientação e educação.