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domingo, 28 de novembro de 2010

Obesidade

A obesidade caracteriza-se por um estado em que há maior quantidade de tecido adiposo em relação à massa magra do que o esperado, considerando-se sexo, idade e altura. Isto acontece quando há ingestão de calorias maior do que o necessário e não se consegue gastá-las na mesma proporção. Percebe-se que a explicação é simples: aumento do consumo de alimentos calóricos somado a uma vida sedentária é igual a ganho de peso. Ou seja, falando de forma objetiva, a combinação rotineira de alto consumo de carboidratos, gorduras e açúcares e falta de atividade física contribui para a obesidade. Isto significa que basta uma dieta saudável e exercícios para que a pessoa emagreça? A questão é um pouco mais complicada, há outras causas envolvidas, como predisposição genética, problemas endócrinos, alterações hormonais.   
A obesidade pode ser medida pelo índice de massa corporal (IMC), obtido pelo peso dividido pela altura ao quadrado; pela circunferência da cintura (CC); pela relação cintura/quadril (RCQ); e há estudos sobre a circunferência do pescoço. O IMC tem sido criticado pelo fato de um fisiculturista (indivíduo que pratica atividade física que visa aumento da massa muscular), por exemplo, ser classificado como tendo sobrepeso, mesmo possuindo baixo índice de gordura corporal. O CC e o RCQ avaliam a localização de gordura, notadamente, a gordura visceral, motivo de preocupação por ocasionar doenças. 
Pode parecer uma avaliação simples: pneuzinhos, barriga pronunciada, a roupa ficando apertada são sinais de alerta. Mas a situação pode sair do controle e o quilos se acumularem antes de a pessoa procurar ajuda.
A relação com a comida é significativa para o ser humano, ela está presente tanto nos bons quanto nos maus momentos, do nascimento à morte. Aniversários, formaturas, casamentos, promoções, os acontecimentos felizes são comemorados à mesa, sempre com fartura e pouco controle. Quem nunca assistiu a um filme americano passado no dia de Ação de Graças, com personagens se empanturrando de peru, purê, tortas? E quem nunca participou de uma ceia de Natal com uma quantidade de pratos suficiente para alimentar um exército? É um aspecto cultural interessante este de mesa farta significar sucesso.
A comida acompanha os momentos tristes também. Os norte-americanos têm a tradição de se reunir para uma refeição após funerais. Luto, demissão, rompimento amoroso são ocasiões muitas vezes enfrentadas com comida. A comida representa celebração e conforto, um modo de comemorar e afogar as mágoas. E o que leva alguém a comer além do necessário, a comer sem fome e não conseguir se controlar? Este será o tema de um próximo texto.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Emagrecer é fácil

Não, emagrecer não é fácil, apesar da crença ainda vigente de que só é preciso disciplina e esforço. A cultura das celebridades contribui para este mito: sempre magras, afirmam que comem de tudo sem problema, adoram doces e sorvetes, têm preguiça e não gostam de se exercitar, dizem não se preocupar com o corpo, e por aí vai. E, quando engravidam, voltam a ser sílfides semanas após o parto. Você, mulher comum, é que é imperfeita, feita de outra matéria-prima, diferente das habitantes dos modernos olimpos. Passa fome, quase infarta na esteira nem ousa sonhar com chocolate, e não emagrece? Você tem um problema.
As bancas de jornais exibem uma quantidade inacreditável de revistas que proclamam a última novidade milagrosa: dieta da lua minguante, dieta da sopa de repolho, dieta da maçã ácida, dieta do chá verde (depois a do chá branco), dieta dos pontos, dieta da gelatina, dieta das proteínas, fora com os carboidratos. Há de tudo para todos os gostos, basta credulidade, e a mensagem é: não há garantias, seu dinheiro não será devolvido, você não conseguiu porque não tem força de vontade, veja a fulana risonha na capa, perdeu 24kg em três meses.
Li numa destas revistas sobre a dieta do dia sim, dia não  (respaldada por uma nutricionista, acreditem) que prega que, se um dia você comer demais, exagerar, basta passar fome no dia seguinte, para compensar. Como um profissional pode aconselhar tal procedimento?  
O fato é que restrição alimentar não funciona, apenas o metabolismo torna-se mais lento e reage para evitar o colapso, e o que a pessoa perde não é gordura, mas massa muscular, porque o corpo precisa de alimento para sobreviver e busca sua fonte de energia onde pode. As dietas restritivas provocam estresse e fácil recaída: quando a pessoa tem lapso, sente culpa, se frustra e sabota ou abandona a dieta.  
Por que dietas sem orientação falham? Se a pessoa tem metas irreais, como emagrecer muito em curto espaço de tempo, fica insatisfeita se a perda de peso é lenta. Perder o excesso de peso de forma saudável é um processo demorado e frustrante mesmo. A pessoa também pode abandonar a dieta após emagrecer e experimentar o efeito sanfona, o emagrece-engorda-emagrece. A falta de exercícios físicos também dificulta qualquer pretensão de emagrecimento.
Fundamental é descobrir a diferença entre fome, vontade de comer e desejo incontrolável de comer. Fome é a sensação de vazio no estômago depois de algumas horas da última refeição. A vontade de comer manifesta-se quando o estômago não está vazio, mas, mesmo assim, a pessoa quer comer alguma coisa. Desejo incontrolável de comer define compulsão alimentar: a pessoa sente forte ímpeto de comer um tipo específico de comida (chocolate, sorvete, batata frita, hambúrguer, por exemplo), que provoca sensações na boca, na garganta, no corpo. Nesta situação tem início o ciclo vicioso: a pessoa come demais, sem real necessidade, sente culpa, desespera-se, fica frustrada e desanimada, engorda, desiste de se cuidar, continua comendo demais etc.
Num próximo texto, abordarei como a psicologia é importante no tratamento da obesidade.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Era das Incertezas

A tevê, os jornais e a internet não apenas informam em relação ao que acontece no mundo, mas atualizam sobre comportamentos e modismos. E muitas vezes as notícias assustam e provocam tristeza, por apresentar situações que começam como divertimento e acabam em tragédia. Acidentes com jovens que saem para se divertir e, em lugar de voltar para casa em segurança, terminam no hospital, ou pior, são constantes. Um mal-entendido, um esbarrão, uma palavra ríspida podem iniciar uma discussão que vira agressão, uma arma aparece e o resultado é dor e vidas destruídas. Festas e trotes violentos em universidades que terminam em mortes não explicadas, brigas por motivos fúteis que marcam corpo e alma ou agressões cometidas por preconceito são noticiadas com regularidade assustadora.
Como alegria pode resultar em sofrimento? Psicologia, sociologia, filosofia tentam entender as motivações pessoais e grupais, mas em alguns casos as explicações parecem insuficientes. Culpa da sociedade permissiva, de famílias disfuncionais, problema genético, transtornos de personalidade, qual a razão de determinados comportamentos? É tentador escolher uma razão e acreditar que ela basta. Mas as pessoas continuam estarrecidas com crimes que desafiam a compreensão e ferem a sensibilidade: que outro é este capaz de espancar e jogar pela janela uma filha, matar os pais e ir para o motel com o namorado cúmplice, matar a ex-mulher por não aceitar a separação? Crimes por ganância, por ciúme, por vingança, por ódio, um sem-número de casos que se sucedem sem dar tempo de se recuperar do anterior.
Os jovens começam a beber e experimentar drogas cada vez mais cedo, na ânsia de se socializar, pertencer a um grupo e ser aceito por seus iguais. Além do desejo de ter tantas experiências físicas e sensoriais quanto possível no menor espaço de tempo, ou seja, rapidamente. É a busca de aventura, às vezes perigosa e inconsequente, como no caso dos pegas e das apostas para ver quem suporta mais dor (isto existe, sim).
No campo emocional, como explicar tantos casos de gravidez não-planejada na adolescência? Com a facilidade de informação, é impossível acreditar em ignorância sobre o próprio corpo ou sobre métodos contraceptivos. Estudos feitos com uma amostragem desta população indicam que a maternidade significou uma identidade para elas. Aí vem a pergunta: o que aconteceu para meninas tão jovens precisarem gerar uma vida para se reconhecerem como sujeito? Do que estas adolescentes precisavam, além de um tempo de amadurecimento natural? A adolescência é uma confusão de hormônios e emoções, maior ou menor dependendo das circunstâncias, mas impossível passar impune por ela.
Relacionamentos-relâmpago, em qualquer idade, podem revelar questões emocionais, como dificuldade de lidar com a frustração, e ter consequências sérias. Há uniões tão breves que os casais mal têm tempo de se conhecer, e logo repetem a mesma história com outros parceiros.
As pessoas queimam etapas de experiência e aprendizado fundamentais para o amadurecimento. Crianças querem crescer logo; jovens lutam para alcançar a idade adulta. E, no final desta história, encontram-se adultos infantilizados e imaturos, que acabam sucumbindo às pressões e sem condições de lidar com situações de confronto, impasse e estresse. Esta é uma explicação? Não, é só a ponta do iceberg.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Normalidade, pra que te quero?

Diz o poeta que, de perto, ninguém é normal. A discussão sobre a normalidade parece ter sido superada, já que a psicologia nunca chegou a um consenso sobre o que é ser normal, além de andarmos muito ocupados em entender e tratar seu oposto, os transtornos psicológicos. Em termos culturais, morais e éticos, houve muitas mudanças nas últimas décadas. Conquistas como direitos civis, direitos humanos, liberdade de pensamento e expressão, liberdade política, religiosa e sexual mostram como temos avançado em busca de respeito e igualdade, e de novas formas de convivência. A informação foi democratizada, as distâncias foram superadas pelos avanços na comunicação, o acesso à cultura se ampliou, e os valores mudaram. 
Mas o que isto significou ao nível micropolítico, como mudanças e conquistas se traduziram no cotidiano das populações, e, principalmente, na área de saúde mental?
Além das neuroses e psicoses clássicas, a sociedade moderna produz novas síndromes e novos desviantes. Necessidades de que nem se suspeitava foram criadas, embrulhadas e entregues às pessoas, que chegam a pensar como podiam viver sem aquilo de que nunca precisaram. E isto vale para objetos e emoções, do aparelho de televisão de plasma ao sorriso recauchutado da atriz de novela, do celular multifuncional ao falso príncipe encantado que usa as pretendentes e é usado por elas no mais novo reality show. Novos desejos, novos amores, velhas decepções e tentativas num faz-de-conta que se faz passar por algo sério e real. Talvez a grande questão seja em que  as pessoas creem ou sejam levadas a crer, a própria crença em si pode estar sendo escolhida e dada a elas. Resumindo: a pessoa quer ou é levada a querer? Esta é uma longa discussão.   
A doença é socialmente produzida com outras faces, catalogada, e então tratada com terapias, remédios e, se necessário, internação. É um desdobramento revisto e atualizado das antigas psicoses e neuroses, novas esquizofrenias, novas prisões do sujeito em desejos impossíveis, sem respostas. O que fazer das demandas por modelos que esquecem o indivíduo (seu interior) e trabalham com imagens preconcebidas (seu exterior)? Um exemplo são os transtornos alimentares, principalmente a anorexia e a bulimia. Mulheres cada vez mais jovens, e alguns rapazes também, sucumbem a uma imagem fabricada de glamour, perdem o controle da própria vida, do próprio corpo, das próprias emoções, e tentam recuperá-lo através de dieta restritiva e severa, jejum e métodos compensatórios, como vômitos, laxantes, enemas, exercícios físicos.
A indústria farmacêutica financia pesquisas que visam ao desenvolvimento de drogas que minimizem o sofrimento, contribuindo para a ideia de que é possível controlar e medicalizar os distúrbios psicológicos. As drogas interessam por sua funcionalidade, e são periodicamente substituídas pelas de “última geração”. Elas ajudam no tratamento, mas não  dão conta da dor psíquica, por isto não se pode prescindir da psicoterapia. O transtorno alimentar, por exemplo, é a manifestação de sofrimento emocional, e é este que deve  ser tratado.
E do que se trata a psicoterapia, afinal? De tudo que foi exposto, pode-se dizer que o psicólogo é um arqueólogo da mente, aquele que busca as emoções e os desejos do cliente que foram soterrados pelo excesso de oferta de tudo, literalmente, mas que não preenche o vazio da eterna necessidade do que não se sabe, e pela pressão de acompanhar a modernidade. A pergunta é: onde estão suas emoções, dentro ou fora de você?





sábado, 6 de novembro de 2010

Por que Engordamos?

Tem se dito e escrito que a obesidade tornou-se uma epidemia, problema de saúde pública, tanto em noticiários quanto em programas sensacionalistas. Seja tratada de forma séria ou não, a obesidade virou assunto obrigatório, popularizou-se, e mais ainda, dietas, receitas miraculosas, remédios e fórmulas, e todo tipo de tratamento, do tradicional ao alternativo, são oferecidos em larga escala.
Mesmo com tanta discussão e soluções, da banca de jornal à televisão e internet, combater o excesso de peso é difícil. Emagrecer é difícil. Por quê?
As razões que contribuem para a obesidade são sociais e econômicas, biológicas e evolutivas, e psicológicas. As razões sociais e econômicas referem-se às facilidades da vida moderna que estimulam o sedentarismo de crianças, jovens e adultos, como carro, elevador, controle remoto, e os eletrodomésticos, como televisão, computador, videogame. Some-se a isto o  crescimento da oferta de  fast food, de toda sorte de produtos calóricos e pobres em nutrientes, como biscoitos recheados, refrigerantes, massas prontas, por exemplo, a preços acessíveis, e temos um bom motivo para o aumento de peso.
As razões biológicas e evolutivas relacionam-se à predisposição genética e à autorregulação do corpo. Quanto à genética, foram identificados mais de 250 genes que favorecem o acúmulo de gordura, mantêm o metabolismo lento ou aumentam o apetite. A autorregulação diz respeito à memória genética: quando a pessoa faz severa restrição alimentar para emagrecer, o corpo reage estocando para evitar o colapso. Isto vem de nossos antepassados longínquos, que precisavam lutar pela sobrevivência, tinham que caçar suas refeições e percorriam grandes distâncias em busca de alimento.
As razões psicológicas são ansiedade, depressão, baixa autoestima. Problemas emocionais podem levar à compulsão alimentar, quando a pessoa come em vez de expressar angústia, tristeza ou quando estressada ou preocupada. A comida é usada para aplacar o desconforto. Quem de nós nunca afogou as mágoas com uma barra de chocolate, um pedação de bolo, uma generosa porção de sorvete? Mas quando a comida começa a funcionar como conforto ou recompensa (eu mereço mais um pedaço de torta porque meu namorado brigou comigo/minha chefe roubou meu crédito pelo trabalho/não consegui a promoção/fui mal na prova), sempre que surge um problema ou contrariedade, é hora de refletir sobre sentimentos, atitudes e escolhas.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

As Gêmeas Anoréxicas

Assisti a um programa na tv paga sobre gêmeas anoréxicas que sofreram intervenção da família, para que aceitassem tratamento antes que  o estado  de saúde delas se deteriorasse de forma irreversível.
A anorexia nervosa é um transtorno alimentar predominante em mulheres, mas que também ocorre em homens. Caracteriza-se por medo intenso de engordar, mesmo que a pessoa apresente peso abaixo do normal adequado à idade e à altura. Para emagrecer, o indivíduo adota restrição alimentar rígida e intensa, chegando mesmo a praticar jejuns, eliminando da dieta alimentos com alto teor calórico e elaborando extensa lista de comidas proibidas, ou seja, tudo que, supostamente, engorda, sem preocupação com a saúde. Além disso, estas pessoas induzem o vômito após comer, utilizam laxantes em grande quantidade, diuréticos, fórmulas ou coquetéis manipulados em farmácias com o objetivo de acelerar a perda de peso, enemas, e praticam exercício físico em excesso.
Como a maioria dos distúrbios, a anorexia nervosa tem causas genéticas, psicológicas, sociais e culturais. Estudos constataram que o desenvolvimento da anorexia e da bulimia  pode estar relacionado aos hábitos alimentares que a mãe passa para a filha. Ninguém discute a importância da família no desenvolvimento psicológico das crianças e nem é possível negar que os transtornos alimentares estão aparecendo em crianças cada vez menores. Baixa autoestima, histórico de abusos sexuais, bullying também contribuem para o surgimento deste distúrbio.
Voltando ao programa, o que me chamou atenção foi não ter havido menção aos grandes vilões, quando se trata de imagem corporal: a sociedade e os meios de comunicação, com a imposição de modelos estéticos irreais. No caso das gêmeas, especificamente, tratava-se de uma disputa que começou quando uma delas começou a se destacar na prática de um esporte. A rivalidade, no final, acabou unindo-as, de forma doentia, na anorexia. Viviam em função da doença uma da outra. Elas abandonaram os estudos, não trabalhavam nem tinham vida social. Tinham uma irmã mais velha, que também alienaram de sua vida.  Não foram dados detalhes, mas o tratamento enfocou a individuação: elas precisavam se tornar pessoas separadas e inteiras em sua individualidade. Fizeram tratamento em uma clínica por três meses, melhoraram de saúde e retomaram suas vidas. Provavelmente, continuaram com acompanhamento, pelo menos é o que espero.
A anorexia é uma doença séria, que pode levar à morte. É preciso intervenção da família e amigos, porque o anoréxico não busca ajuda por conta própria, pela simples razão de que ele não considera que tenha um problema.